sexta-feira, 24 de julho de 2020

Carta de Karl Barth em Resposta aos Questionamentos de Cornelius Van Til



Pense Teologia: KARL BARTH (1886-1969)

Artigo traduzido do blog PostBarthian, que pode ser lido aqui.
Traduzido por Marlon Marques

Na seguinte carta do livro Karl Barth: Letters 1961-1968, Karl Barth diz que Cornelius Van Til o considerava "possivelmente o pior herege de todos os tempos". É sabido que Van Til ofendeu Barth e escreveu dois livros contra ele; um dos quais é "Cristianismo e Barthianismo", que coloca Barth em oposição ao cristianismo. Mesmo que Van Til negue ter chamado Barth de arqui-herege, sua avaliação de Barth é clara. Cornelius Van Til tentou várias vezes encontrar-se com Karl Barth durante a série de palestras americana de Barth em 1962 para ter suas perguntas respondidas pessoalmente por Barth, mas os dois nunca conversaram diretamente. Como nosso grande Pai da Igreja Karl Barth responde a Van Til e às críticas do fundamentalismo? Na carta seguinte de Karl Barth a Geoffrey W. Bromiley, temos um exemplo de como Barth reagiu a esse arremesso fundamentalista.

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Carta 3: Ao Dr. Geoffrey W. Bromiley, Pasadena, Califórnia

1 de junho de 1961

Caro Dr. Bromiley,

Por favor, desculpe-me e tente entender que não posso e não vou responder às perguntas que essas pessoas colocam.[1]

Fazer isso no tempo solicitado seria, de qualquer forma, impossível para mim. As reivindicações de trabalho no meu último semestre como professor acadêmico (preparação de palestras e seminários, dissertações de doutorado, etc.) são muito grandes. Mas, mesmo que tivesse tempo e força, não entraria em discussão sobre as questões propostas.

Essa discussão teria que se basear no pressuposto primário de que aqueles que fazem as perguntas leram, aprenderam e ponderaram as muitas coisas que eu já disse e escrevi sobre esses assuntos. Obviamente, eles não fizeram isso, mas ignoraram as muitas centenas de páginas da Dogmatics da Igreja onde eles poderiam pelo menos ter descoberto - não necessariamente sob os títulos da história, do universalismo etc. - onde eu realmente me encontro e não me encontro. A partir desse ponto, eles poderiam ter feito outras perguntas.

Respeito sinceramente a seriedade com que um homem como [GC] Berkouwer me estuda e depois faz suas críticas.[2] Posso respondê-lo em detalhes.[3] Entretanto, não posso respeitar as perguntas dessas pessoas da Christianity Today, por eles não se concentrarem nas razões de minhas declarações, mas em certas deduções tolas. Suas perguntas são muito superficiais.

O ponto decisivo, no entanto, é esse. O segundo pressuposto de uma discussão frutífera entre mim e eles teria que ser que somos capazes de conversar em um plano comum. Mas essas pessoas já têm sua chamada ortodoxia há muito tempo. Eles estão fechados a qualquer outra coisa, apegam-se a isso a todo custo e podem adotar o papel de promotores contra mim, tentando estabelecer se o que eu represento concorda ou discorda de sua ortodoxia, da qual eu, da minha parte, não tenho interesse nenhum! Nenhuma de suas perguntas me deixa com a impressão de que desejam buscar comigo a verdade que é maior que todos nós. Eles assumem a postura daqueles que já a possuem e que esperam aumentar sua felicidade, conseguindo provar a si mesmos e ao mundo que eu não compartilho de tal felicidade. De fato, há muito que decidiram e proclamaram publicamente que eu sou um herege, possivelmente ([como expressa a mim] van Til) o pior herege de todos os tempos.[4] Que assim seja! Mas eles não devem esperar que eu me dê ao trabalho de lhes dar a satisfação de oferecer explicações que eles simplesmente usarão para confirmar o julgamento que já me passaram.

Caro Dr. Bromiley, você certamente se lembrará do que eu declarei no prefácio de Church Dogmatics IV / 2 nas palavras de um poema do século XVIII sobre aqueles que devoram homens.[5] (5) A continuação do poema é a seguinte: "... pois não há amor verdadeiro onde um homem come outro." Esses fundamentalistas querem me comer. Eles ainda não chegaram a uma "mente e atitude melhores", como eu esperava. Assim, não posso dar a eles nem uma resposta irritada nem gentil, mas sim nenhuma resposta.

Com saudações amigáveis,
Seu,
KARL BARTH

P.S. Peço que transmita o que disse de maneira adequada às pessoas da Christianity Today

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Incluí as perguntas enviadas a Karl Barth, impressas no apêndice 3 de "Karl Barth: Letters 1961-1968"

Apêndice 3

Perguntas a Karl Barth

Do Dr. Clark:

1. Era sensato para Paulo suportar o sofrimento em seu ministério (ou é sensato para nós) se todos estão em Cristo e talvez sejam salvos de qualquer maneira, e se, como você disse uma vez, [Ludwig] Feuerbach e a ciência secular já estão na Igreja?

2. Em seu [livro] Anselmo (tradução em inglês, p. 70), somos informados de que nunca podemos ver claramente se alguma declaração de algum teólogo está de um lado ou de outro da fronteira entre a simplicidade divina e o engano incrível. Isso não torna a teologia - inclusive a sua - uma perda de tempo?

Do Dr. Klooster:

3. Sobre Geschichte e Historie: (a) Essa distinção tem base bíblica? (b) Como distinguir Geschichte que pode ser o objeto da Historie daquele que não pode? (c) Existem dois tipos de Geschichte e, em caso afirmativo, como eles diferem? (d) A cruz e a ressurreição poderiam ser Geschichte mesmo que se provasse mais improvável para a Historie? (e) A cruz e a ressurreição são datáveis no sentido pretendido pelos credos e confissões? Ou apenas (f) como aqueles que os percebem são datáveis?

4. Sobre humilhação e exaltação: (a) Se não forem sucessivas, a cruz e a ressurreição podem ser datadas? (b) Se não forem sucessivas, a ressurreição é um "novo" evento apenas em um sentido não cronológico? (c) A ressurreição é um evento passado verdadeiro, ou é apenas um evento atemporal manifestado e pregado no tempo?

Do Dr. Van Til:

5. Se a ressurreição é um objeto de expectativa e recordação (K.D. I, 2, p. 128), (a) isso se refere à ressurreição de Cristo? Em caso afirmativo, (b) em que sentido é um evento datável objetivo, passado?

6. Se a cruz e a ressurreição como Geschichte são a base da salvação para todos, (a) isso é consistente com a visão ortodoxa de sua natureza como eventos passados? Ou (b) existe uma conexão entre a visão ortodoxa e a falta de apreciação ortodoxa por um universalismo "bíblico", de modo que a historicidade da cruz e da ressurreição devam ser alteradas no interesse desse universalismo?

Barth, Karl. Cartas de Karl Barth 1961-1968. Ed. Geoffrey W. Bromiley, Jürgen Fangmeier e Hinrich Stoevesandt. Trans. Geoffrey W. Bromiley. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1981. 342-3. Impressão.


[1] Professor Geoffrey W. Bromiley do Fuller Theological Seminary, Pasadena, foi coeditor e tradutor chefe da versão inglesa da Church Dogmatics. A pedido do editor do Christianity Today, e como um favor pessoal para ele, Bromiley perguntou a Barth se ele responderia a algumas perguntas críticas feitas pelos teólogos americanos Clark, Klooster e van Til (ver apêndice 3).
[2] G. C. Berkouwer, The Triumph of Grace in the Theology of Karl Barth (Grand Rapids: Eerdmans, 1956).
[3] C.D. IV, 2, p. xii, IV, 3 pp. 173-180.
[4] Cf. C. van Til,  The New Modernism (Philadelphia, 1946), and later, in defense of his view against Berkouwer, Christianity and Barthianism (Philadelphia, 1962).
[5] "Obviamente, existem fundamentalistas com quem o diálogo é possível; apenas canibais estão além dos limites, e mesmo provisoriamente, pois sempre há esperança de que eles alcancem uma melhor mente e atitude". [Os instintos de Barth aqui não eram defeituosos, pois parecia mais tarde que os três teólogos teriam dado a última palavra em resposta a suas respostas. G.W.B.]

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A JUNÇÃO DO MÉTODO HISTÓRICO-CRÍTICO COM O MÉTODO HISTÓRICO-GRAMATICAL: UM PIONEIRISMO METODISTA NOS ESCRITOS DE VINCENT TAYLOR E HOWARD MARSHALL

New Testament Perspectives: The Enigmatic Nature of Mark's Gospel ...                Free Online Bible Classes | Prof. I. Howard Marshall




Autor: Marlon Marques


            Muitos se perguntam se dá para juntar o método histórico-crítico com o método histórico-gramatical. Ambos os métodos hermenêuticos visam a intenção do autor bíblico, e não uma construção do sentido ou de vários sentidos do texto por parte do leitor (o que deve ser evitado). Queremos destacar que pode sim haver uma "conservartização" do método histórico-crítico. A priori, devemos entender que, geralmente, os adeptos do método histórico-crítico desconsideram a veracidade dos relatos bíblicos, mas entendem que o sentido do texto bíblico, mesmo que a história do texto bíblico seja uma invenção, só apresenta um sentido, o que o autor (ou o que se passou pelo autor) quis transmitir. Em contrapartida, os adeptos do método histórico-gramatical, que também entendem que o texto bíblico somente apresenta um sentido, acreditam que a história dos textos bíblicos é verdadeira e inspirada pelo Espírito Santo. Resumindo, ambos os métodos hermenêuticos, histórico-crítico e histórico-gramatical, partem do princípio de que só há um significado textual por parte de quem escreveu os textos bíblicos. O que eles diferem é no tocante a se os relatos bíblicos são ou não verdadeiros. Neste caso, cristãos conservadores adotam, logicamente, o método histórico-gramatical.
            A questão é se dá para um adepto do método histórico-gramatical usar o método histórico-crítico. A resposta é um sonoro sim! Um dos maiores eruditos bíblicos da atualidade, que possui vários livros já traduzidos para o português, Craig Blomberg, adota o que ele chama de método histórico-crítico-gramatical. No livro Biblical Hermeneutics - Four Views (Hermenêuticas Bíblicas - Cinco Visões), que não foi traduzido para o português ainda, Blomberg defende justamente esse entendimento hermenêutico, que é a junção do método histórico-crítico com o método histórico-gramatical.
            Dois eruditos bíblicos britânicos e metodistas, Vincent Taylor e Howard Marshall, foram os responsáveis por trazerem ferramentas do método histórico-crítico para o meio acadêmico bíblico conservador. Vincent Taylor foi o responsável por trazer para o meio conservador a crítica da forma[1], que no meio radical do método histórico-crítico, como Rudolph Bulttmann, Martin Dibelius e outros, realça que os relatos bíblicos dos evangelhos sinóticos, por exemplo, ou foram criados ou foram acrescentados pela igreja primitiva. Taylor entendia que a igreja primitiva participou somente organizando os relatos sinóticos, e não criando nem acrescentando.[2]
            Howard Marshall foi o responsável, por sua vez, pela adequação da crítica da redação ao meio conservador,[3] fato este tão importante para os pentecostais. A crítica da redação, criada no meio dos adeptos do método histórico-crítico, entende que cada escritor bíblico tem sua própria teologia. Vejamos o exemplo dos livros lucanos e paulinos. No meio conservador, geralmente, antes do lançamento do livro Luke: Historian and Theologian (Lucas: Historiador e Teólogo),[4] cria-se que Lucas somente era um historiador, e não um teólogo.[5] Para valer-se de conteúdo teológico e formular doutrinas, haveria de recorrer-se aos escritos paulinos. Antes deste livro de Marshall, somente os adeptos do método histórico-crítico entendiam que Lucas era teólogo, pois, de acordo com a crítica da redação, como vimos, todos os escritores bíblicos (ou aqueles que se passavam por tais escritores) tinham seu próprio entendimento teológico.[6] Contudo, Marshall, em 1970, com o lançamento do seu mencionado livro, afirma que Lucas era tanto um historiador quanto um teólogo de fato. Com isto, os pentecostais, que utilizavam principalmente o livro de Atos para validar seu distintivo teológico peculiar (batismo no Espírito Santo como separável e empoderador para o serviço)[7], recorreram a essa “conservatização” de um método histórico-crítico realizado por Marshall para embasarem-se academicamente e defenderem com mais respaldo o seu distintivo teológico.[8]
            Enfim, constatamos, em poucas palavras, que é possível para um adepto do método histórico-gramatical, que sempre é conservador na sua teologia, usar ferramentas advindas do método histórico-crítico, haja vista, como salientamos, os dois métodos objetivarem um significado único no texto bíblico.




[1] CARSON, D. A.; MOO, Douglas; MORIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 23-24.
[2] Ibid, p. 24.
[3] MENZIES William; MENZIES, Robert. No Poder do Espírito – Fundamentos da Experiência Pentecostal... Um Chamado ao Diálogo. São Paulo: Vida, 2002, p. 48.
[4] Publicado no Brasil como MARSHALL, Howard. Fundamentos da Narrativa Teológica de São Lucas. Natal: Carisma, 2019.
[5] Ibid, p. 44-45.
[6] Ibid, p. 46-48.
[7] STRONSTAD, Roger. Teologia Carismática de Lucas. Trajetórias do Antigo Testamento a Lucas-Atos. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, p. 30.
[8] Ibid, p. 48, 68.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Breve Comentário sobre a Crítica de um Autor a um Artigo que Lhe Direcionei


    Muitos que não gostam da pesquisa e do ambiente acadêmico veem certos debates e conversas acadêmicas sob uma grande suspeita, mais precisamente com relação ao ensejo que este meio causa para a exibição de egos inflamados. Realmente, nesse ambiente há muitas vaidades. Eu mesmo não sou imune a isso. Contudo, para não me estender neste sucinto artigo aqui no meu blog pessoal, comentarei brevemente a respeito de um autor cuja crítica lhe fiz (não somente a ele, na verdade) em um artigo acadêmico na revista acadêmica Bona Conscientia. Meu artigo chama-se Método Hermenêutico Histórico-Gramatical e Pentecostalismo, uma União Intrínseca eNecessária: Uma Crítica à Hermenêutica Pós-Moderna.
   Analisei, em meu artigo aludido acima, duas obras publicadas pela CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus), lançadas há cerca de dois ou três anos. A última delas, cuja escrita é composta por dois autores (obra esta retirada de catálogo em menos de um ano do lançamento pela CPAD), é o foco principal de todo este entrevero. A crítica a mim escrita no dia 02/04/2020 pelo segundo autor da última obra (a retirada de catálogo pela editora), em seu blog pessoal, é a quem este breve comentário é dirigido, haja vista tal autor ter direcionado críticas ao meu artigo acadêmico sobre sua obra escrita, como salientei, em coautoria com um colega seu.
    Na verdade, as críticas do referido autor ao meu artigo não foram críticas argumentativas, mas sim uma demonstração de ressentimento pelo fato d’eu tê-lo criticado e exposto seus equívocos.
    No começo do artigo em seu blog pessoal ele desmerece a revista Bona Conscientia afirmando que ela não tem Qualis alta. A revista tem apenas duas edições e tem em sua equipe editorial dois doutores, dois doutorandos e dois mestres. Acredito que o ressentimento do autor à crítica argumentativa que lhe fiz sobressaiu-se, haja vista ele ter usado de artifícios apelativos e depreciantes a uma jovem revista acadêmica.
    O autor menciona que usei uma linguagem coloquial em meu artigo acadêmico. A suposta linguagem coloquial que ele cita é a expressão “quis passar”. Não entendo que esta expressão seja coloquial, mas admira-me muito o autor ter destacado isto, sendo que em sua obra ele e seu colega usam a expressão “De lá pra cá” (p. 38). Não é cabível esta expressão em um texto acadêmico. Como este espaço é um blog pessoal, cito uma assertiva, que na verdade é bíblica, proferida pelo nosso Senhor Jesus, a saber, que o referido autor quis coar um mosquito, mas engoliu um camelo (parafraseando Jesus em Mateus 23.24).
    Ele relatou no seu blog pessoal que me confundi sobre o modernismo ter surgido por meio do iluminismo. Querendo me desqualificar, o autor não se ateve ao fato d’eu ter afirmado isto com embasamento bibliográfico. Stanley Grenz, renomado teólogo, falecido em 2005, afirmou isso em uma obra sua chamada Pós-Modernismo, cuja fonte bibliográfica citei em meu artigo. O interessante é que o autor, junto ao seu colega de escrita, relata no livro pela CPAD, já mencionado, que o método histórico-crítico tem suas raízes no paradigma moderno-iluminista (p. 65). Com isso, ele relaciona, junto ao seu colega, modernismo ao iluminismo. Logo, como ele me critica acerca da origem do modernismo no meio iluminista? Vê-se uma incoerência por parte do autor.
    Em outro momento do meu artigo acadêmico, o autor destaca um trecho em que eu escrevo o seguinte: “Fato é que o pós-modernismo não se coaduna com o pensamento cristão tradicional de se entender não apenas as Escrituras, mas também o legado da tradição cristã.” O autor ironiza no artigo em seu blog pessoal que é difícil de entender a redação acima. Observa-se, evidentemente, que o autor usa muito do ad hominem, pois o que redigi não há nem erros de português nem palavras truncadas. A exibição de uma forma apelativa e nonsense de desqualificar-me é tão imensa que o autor destaca um trecho totalmente entendível do meu artigo e o critica. Na verdade, não critica o argumento, mas sim uma suposta, mas totalmente infundada, ilocução truncada de minha parte. Enfim, como pode ser lido e entendido, asseverei que o pensamento pós-moderno, do qual o autor se apropria, não condiz com as Escrituras Sagradas (Bíblia Sagrada) nem com a Tradição bimilenar da fé cristã.
    O autor destaca um trecho do meu artigo em que faço uma crítica a Derrida, Foucault e outros. Esta minha crítica não foi sem fundamentação. Eu me baseei em um livro do renomado teólogo Alister McGrath, também com fonte bibliográfica. Novamente reitero, o autor, em todo momento e a todo custo, lança-se de ad hominem grosseiro para desqualificar meu artigo. Critica minhas declarações, sem contra-argumentá-las, como se eu as construísse sem fundamentação bibliográfica alguma. Novamente, evidencia-se ressentido pelo meu artigo crítico que direcionei à sua obra.
    Em um trecho do artigo do seu blog pessoal, o autor menciona minha declaração de que não se tem conhecimento de que um pentecostal (e a isto me refiro a pentecostais acadêmicos, como está implícito, pois o ambiente em questão é acadêmico) utilizou-se da experiência como fato determinante para entender o texto bíblico. O autor ironiza, como lhe é de praxe, e escreve que se eu não tenho conhecimento, por que vou abordar isso? Indubitavelmente, o que escrevi tem como objetivo perlocucionário (de que todos entendam) que o fato d’eu não ter conhecimento é porque não existe. O autor cita Stronstad, Erwin e Fee para afirmar que a experiência determina o entendimento do texto. Contudo, isto não é verdade. O autor nem citou embasamento para isso, como também lhe é de costume não citar. Como deixei claro no meu artigo, citando bibliograficamente Stronstad e Fee, estes se valem do método histórico-gramatical fortemente. O autor menciona Stronstad em um artigo em seu blog pessoal em março de 2019, sem citar a fonte, mas, como tenho a obra de Stronstad, reconheci de onde o autor o citou. Ele o cita de uma forma descontextualizada como se Stronstad corroborasse com o argumento hermenêutico pós-moderno. Como destaquei no meu artigo, evidenciando de onde ele tirou essa citação de Stronstad, o autor equivocou-se totalmente.
    O autor além de afirmar que eu abordo os métodos histórico-crítico e histórico-gramatical de forma equivocada, mas sem mencionar onde me equivoco, insinua novamente que o texto do meu artigo é truncado. Como vimos, o exemplo de truncamento que ele deu do meu texto é uma passagem bem clara e entendível. Vê-se, repito, que o autor utiliza-se de esquivas para querer não contra-argumentar o que escrevi acerca do seu livro, mas sim, a todo custo, tenta me desqualificar. Refere-se a mim até com o termo “rapaz”. Tudo isto é uma demonstração de apelação pueril por parte do autor.
    Não haverá mais comentário algum de minha parte a quaisquer falas ou escritos do referido autor (mesmo se este comentar este artigo), pois, mediante suas atitudes depreciativas e apelativas, não me sinto inclinado ao que ele produz.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Carta de Edith Schaeffer, Esposa de Francis Schaeffer, Evidenciando-se Não Calvinista

                                     

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Uma indagação que venho considerando há tempos é se Francis Schaeffer seria, de fato, calvinista na soteriologia. Lendo livros dele como O Deus que Intervem e A Verdadeira Espiritualidade, tenho tido dúvidas se ele era um calvinista soteriologicamente falando. Ele usa sempre palavras como "aceitar a Jesus" e afirma que temos escolha no sentido de podermos escolher o contrário do que escolhemos. Anos atrás eu descobri uma carta de Edith Schaeffer em que ela afirma que não crê na expiação limitada nem na graça irresistível. Esta carta ela dirige a Bill Edgard depois que este afirmou que os ataques terroristas no 11 de setembro foram milimetricamente predeterminados por Deus. Ela afirma que o que ela pensa corrobora com o pensamento de seu marido e critica Edgard. Vejamos sua carta. Destaquei em azul a parte, mais ao final, que ela demonstra ter um pensamento arminiano ao invés de calvinista na soteriologia. Texto disponibilizado por Udo Middelmann, genro dos Schaeffer, que também não se via como calvinista na soteriologia. Confira aqui.


2 de julho de 2002 Caro Bill,


Lembro-me de como você tocou seu tipo especial de jazz na Music Conference em Minneapolis/St. Paulo. Barbara estava perto de mim. Eu não apenas gostei da sua música, mas tivemos uma conversa depois que a comida foi servida e uma certa discussão ocorreu.

Como estou morando na Suíça agora, tendo trazido não apenas o piano, mas também todos os meus móveis, que fazem parte de nossa história, estou cercada por lembranças não apenas de latão, madeira e couro, mas também de algo incrível. memória que Deus nos deu para reconstruir conversas e detalhes da vida.

Lembro-me da minha conversa aos 3 ou 4 anos de idade, com uma pequena companheira chinesa declarando a ela a necessidade de saber o que a Bíblia ensina, a urgência de sentir o que as pessoas precisam saber continuou desde esse momento da vida até o presente por surpreendentes lugares e anos diferentes durante meus 87 anos de vida.

Quando eu tinha 6 anos em Monróvia, Califórnia, a caminho da Igreja Batista que frequentamos, passei ferozmente por uma Igreja Católica Romana e uma Igreja Ciência Cristã, acusando meus pais de não serem fortes o suficiente em sua crença, porque se dignaram a andar a passos lentos de maneira digna. "Como você pode….?"

Quando eu estava com Fran[cis] aos 17 anos, decidi dentro de mim, embora não lhe dissesse, que nunca me casaria com ele se ele continuasse na Igreja Presbiteriana a que pertencia com um pastor muito liberal. Certamente não fui derrotada por ter as opiniões que tenho sobre a verdade.

Agora, seu livro [de Bill Edgard] foi lido para mim duas vezes, com uma distância de tempo intermediária. Leia pra Mim? Porque tenho degeneração macular sob a córnea. Infelizmente, não sei ler, mas tenho livros em fita ou alguém lê para mim.

Sua posição atual me entristece. Há muitos anos, Fran saiu com Bob Rayburn, dos professores do Seminário de Westminster e suas discussões teológicas, devido à posição que ocupavam em relação à predestinação e ao livre arbítrio. Eu mais do que concordo com ele e concordo totalmente com ele quando ele se demitiu de Westminster e foi transferido para o recém-fundado seminário teológico, que se reunia nas salas da Escola Dominical do Dr. Laird, onde às cinco da tarde todos corriam para as janelas para assistir ao azul trem a caminho de Washington DC.

Mais tarde, fomos à Holanda sob o Conselho Independente de Missões Estrangeiras Presbiterianas. Não paramos de ser calvinistas, mas lamentamos a posição da Igreja Reformada Holandesa, que parecia excluir qualquer um que não fosse "chamado por Deus para ser reformado holandês" e, portanto, não ir para o céu. Meu marido e Hans Rookmaaker tiveram muitas discussões longas sobre as refeições da Indonésia em um restaurante, com duração de horas, e em seu apartamento. Aliás, Anky e eu tivemos momentos juntos em um banco do lado de fora, orando juntas, porque ela lamentava a falta de realidade naquela igreja e estava com fome de alguém com quem orar pelas necessidades de seus filhos e de outras pessoas com quem se importava. Se tudo já está ordenado, a oração se torna não apenas inútil, mas também uma farsa

Meu próprio histórico era a Missão Interior da China. Como nasci em uma casa na propriedade que era a 1ª estação missionária da CIM, eu estava de acordo com o jovem Hudson Taylor, cuja história me fascinou quando ele se afastou da igreja inglesa Mission Society e de seus programas para ir de burro no interior da China, cultivando sua trança e vestindo roupas chinesas para combinar com os chineses. Meu próprio pai cresceu o cabelo, o suficiente para ter um rabo de cavalo, pois desprezava os estrangeiros que compravam cabelos falsos para prender aos seus.

A CIM tinha como princípio, diferente da Igreja Reformada Holandesa e das Missões Presbiterianas, que eles nunca pedissem dinheiro, mas oravam acreditando que, se estivessem realizando um trabalho aprovado por Deus, ele colocaria no coração e na mente das pessoas a doação. Os primeiros missionários da CIM eram graduados de alto nível de universidades e de famílias de alta posição, que não estavam de acordo com a opinião de suas famílias de que estavam desperdiçando suas vidas na China. Eles ficaram sem aprovação ou apoio visível, acreditando que Deus colocaria no coração das pessoas o envio de dinheiro para as necessidades diárias.

Minha mãe e meu pai se casaram na China e administravam uma escola para meninos e meninas. Eles tinham duas meninas e queriam mais do que qualquer coisa um menino. Quando ele nasceu, eles o nomearam John Eldridge. Aos 9 meses, ele teve disenteria amebiana e morreu por falta de remédio em 6 semanas. Mamãe me disse nos anos seguintes que os olhos dele aumentavam a cada dia e seu corpo ficava cada vez mais magro. Eles não tinham orado? Claro que eles tinham. Eles não haviam feito a obra do Senhor à maneira do Senhor? Claro que eles tinham. Naqueles dias, nenhum missionário poderia voltar ao seu país sem ter passado pelo menos sete anos no exterior.

Meu pai ainda lamentou a morte de seu filho quando ele completou 100 anos. Ele me disse naquele dia: "John Eldridge cresceu para ser homem? Ele ainda será um garotinho? Como vou reconhecê-lo no céu?" Ele disse, olhando para as mãos: "Veja Edith, essas mãos tocavam piano e violão. Por que precisamos fazer essas mudanças?" Meu pai orava todos os dias para que o Senhor voltasse e que num piscar de olhos suas mãos fossem trocadas e que ele descobrisse que podia reconhecer seu filho tão bem quanto sua esposa, que havia ido antes. Ele era um pregador e sempre pregara que a morte é um inimigo e que Cristo voltaria a toda uma geração de pessoas que nunca conheceriam a morte, e esperava ser uma dessa geração. Não concordo com a sua declaração chamando a morte de saída.

A vida eterna, enfatizada na palavra de Deus, enfatiza a palavra VIDA, colocando-a na eternidade.

O 11 de setembro em Nova York parecia ser uma vitória de um grupo perverso de pessoas que queriam criar um crime espetacular contra a América, provando sua força e inteligência. Conseguiu matar milhares de cristãos e incrédulos. Hoje, dois aviões se chocaram contra a Alemanha, um cheio de crianças, o outro um avião de carga pilotado por dois pilotos, preciosos também para suas famílias. As pessoas são todas importantes para famílias e amigos. Um jornal não pode ser simplesmente virado para a próxima página para se afastar das terríveis notícias. A história é real e importa. Deus não é o autor da crueldade ou descuido humano. Deus não orquestra eventos trágicos.

Jesus, que chorou pela morte de Lázaro e clamou em outro momento: "Jerusalém, quantas vezes eu te reuniria como mãe quando ela cria seus filhotes, mas você não quis", é compassivo. Penso em todas as passagens que dizem: "Vire, vire, volte". Quando Cristo diz: "Você não faria", isso implica uma escolha humana genuína.

A Bíblia termina com um convite. "O Espírito e a Noiva dizem: Vinde, e ouça quem ouve, diga: Vinde! Quem estiver com sede, venha e quem quiser, tome o presente gratuito da água da vida." Ap 22:17. Este convite não é feito com uma cerca, mas a todos que estão ao seu alcance.

"Quem quiser" é verdadeiro e não é limitado, mesmo porque a expiação não é limitada. Não acredito em uma expiação limitada. Também não acredito em graça irresistível. Eu acredito que Deus deu escolha aos seres humanos, e essa escolha é real. Ele respeita a escolha negativa e a positiva. Ele criou seres humanos, não por acaso, com mentes que podiam pensar e escolher mesmo depois da queda. Começando com Caim e Abel, você pode ver o fluxo de escolhas positivas e negativas. A Bíblia dá e continua ao longo dos tempos uma forte declaração da existência da escolha humana, o que explica por que essa liberdade gera tragédia e grande alegria.

Espero que você entenda nesta carta que concordo com Udo e Debby quanto às coisas que os perturbaram em seu livro. Eu também tinha lido para mim a (crítica) que Udo escreveu…. Na verdade, achei que deveria ser publicado, porque achei que era um retrato abrangente e preciso do que Fran[cis] e eu ensinamos.

Não sei quando estarei na Filadélfia novamente. Estive recentemente em Nova York e assisti a um concerto no Carnegie Hall. Lembro-me de você e de Barbara com muito carinho e sempre gostamos de tocar piano. Eu tenho um incrível Steinway Baby Grand no meu antigo chalé aqui, que eu gostaria que você pudesse vir brincar.

Com amor, Edith.

Tradução de Marlon Marques

sexta-feira, 29 de março de 2019

PENTECOSTALISMO, EXPERIÊNCIA E INTENÇÃO OBJETIVA DO TEXTO BÍBLICO


            A experiência com o Espírito Santo é algo que todos os cristãos devem buscar. É sabido que todos devem almejar tal experiência. Logo, não vejo que é necessário uma explanação sobre isso. Paulo nos informa que devemos ter experiência por meio das questões atribuladas do nosso dia-a-dia para que possamos ter esperança do encontro com Jesus por causa do amor de Deus derramado pelo Espírito Santo em nossos corações (Rm 5.3-5).
            Uma questão sustentada pelos adeptos do método pós-moderno de hermenêutica é que o método hermenêutico evangélico clássico, o histórico-gramatical, é irmão do método histórico-crítico simplesmente porque a intenção do autor bíblico é buscada pelo leitor. O desejo de buscar o contexto histórico, cultural e análise gramatical para que entendamos o que os autores bíblicos queriam é algo chamado pejorativamente de “racionalista”. Mesmo que o método histórico-gramatical proponha que a Bíblia seja inteiramente inspirada por Deus e o método histórico-crítico proponha que a Bíblia deva ser examinada como qualquer outro livro, os adeptos do método pós-moderno chamam os dois métodos de histórico-crítico. De uma forma apelativa iguala dois métodos que têm propósitos diferentes e os chama de “métodos racionalistas”.
            É verdade que há evangélicos conservadores que adotam o método histórico-crítico, como Howard Marshall, Joachim Jeremias, N. T. Wright, Craig Blomberg, católicos conservadores como Raymond Brown, pentecostais como Robert Menzies e outros. Contudo, não deixam de buscar o sentido pretendido pelo autor bíblico e permanecem crendo que a Bíblia é inteiramente a Palavra de Deus. Se há que se chamar de métodos irmãos o histórico-gramatical e o histórico-crítico somente porque se busca a intenção do autor bíblico, então o método pós-moderno em nada difere do sentimento religioso pregado pelo pai do liberalismo teológico Friedrich Schleiermacher, que desconsiderava a realidade dos eventos bíblicos, mas cria no sentimento religioso, que dava significado da realidade divina na vida da pessoa que sentia tal experiência. Para Schleiermacher:

             A Bíblia contém a verdade somente quando corresponde ao que nossa consciência religiosa nos diz que é verdade. Quando ambas discordam, a Bíblia está errada. Por conseguinte, não podemos conhecer Deus fora de nossa experiência religiosa; só podemos conhecê-lo em relação a nós mesmos, em nosso sentimento de absoluta dependência.[1]
           
            Veja que para Schleiermacher não se pode conhecer Deus fora de nossa experiência religiosa que ultrapassa o significado bíblico. Isto não se parece com o proposto pelo método hermenêutico pós-moderno? Logo, se o método histórico-gramatical e o método histórico-crítico são tão parecidos que os dois são chamados de método histórico-crítico e “racionalista”, por que, então, não se pode igualar o método pós-moderno de hermenêutica bíblica de método shcleiermacheano, portanto, de liberal?
            O método histórico-gramatical lida não com a validação da experiência, mas sim com o que o texto bíblico quer nos passar. O problema de interpretação dos adeptos do método pós-moderno é que somente pelo fato do método histórico-gramatical buscar a intenção do autor bíblico, isso quer dizer que a experiência não deve ser buscada. Não se deve adotar o jogo de soma zero. O método histórico-gramatical não examina a experiência para ter que ser dada ênfase nela para que a interpretação bíblica seja satisfatória. A experiência é filtrada pelo que orienta a Bíblia. É exatamente por isso que há um significado autoral em cada texto bíblico, sejam significados circunstanciais ou atemporais.
            Roy Zuck, hermeneuta conservador, afirma a experiência em seu livro sobre hermenêutica: “A passagem de 1 Coríntios 2.14 também afirma que o irregenerado não entende as coisas espirituais. O verbo grego ginosko (‘compreender’) não significa entender com o intelecto; significa compreender por experiência.”[2] Mais à frente, Zuck afirma algo vital do propósito hermenêutico clássico (histórico-gramatical): “a obra do Espírito na interpretação não quer dizer que ele desvende para alguns intérpretes um sentido ‘oculto’, diferente do significado normal e literal da passagem”.[3] Zuck, ao citar 1 Coríntios 2.14 e quaisquer passagens bíblicas, afirma que a experiência, mediante o Espírito Santo, é algo a ser buscado, mas totalmente de acordo com o que o significado normal e literal das Escrituras que o próprio Espírito santo inspirou.
            Zuck abre o primeiro capítulo de seu livro com a pergunta de Filipe ao eunuco: “Compreendes o que vens lendo?” (At 8.30), ao que Zuck escreve sobre essa passagem: “a pergunta ‘compreendes o que vens lendo?’ indicava a possibilidade de o leitor não estar entendendo, mas, também, que era possível entender”.[4] Percebemos que essa pergunta de Filipe deixa bem claro, ao ler as Escrituras, que o texto bíblico tem um único sentido e que deve ser buscado, do contrário, pouco importava se o eunuco entendesse ou não, o que importaria seria a experiência prévia do eunuco (ou seria o sentimento religioso schleiermacheano?).
            O que chamo de a tríade pentecostal acadêmica de maior relevância, Keener/Stronstad/Menzies, propaga a experiência como altamente necessária na vida do cristão. Craig Keener afirma categoricamente que a experiência é algo notório no ambiente pentecostal. Contudo, a experiência é filtrada pela objetividade das Escrituras:

            A espiritualidade pentecostal sempre leu as Escrituras experiencialmente. Com isso não quero dizer que os cristão pentecostais simplesmente leem as Escrituras à luz de sua experiência, embora isso às vezes seja o caso (e não somente dos pentecostais). Antes, quero dizer que especialmente lemos e desenvolvemos a nossa experiência à luz das Escrituras.[5]

            De acordo com Keener, a experiência é algo extremamente normal para os pentecostais. Entretanto, a experiência é guiada pela objetividade das Escrituras.
            Roger Stronstad deixa bem claro, em um de seus livros, que a experiência carismática do Espírito é um fato real, mas a objetividade bíblica é algo inviolado:

            Incluir a experiência carismática como um elemento na hermenêutica pentecostal não é abrir uma caixa de Pandora do subjetivismo e emocionalismo. Por um lado, a realidade objetiva da Bíblia permanece inviolada. Por outro lado, embora eles estejam em um sentido inseparável, experiência e emoção não são idênticas.[6]
           
            Robert Menzies, que é conhecido pela utilização de métodos histórico-críticos, não alija a experiência como algo essencial da fé pentecostal. Ele afirma que “a hermenêutica do crente pentecostal típico é direta e simples: as histórias em Atos são minhas histórias – histórias que foram escritas para servir de modelo para moldar a minha vida e experiência”.[7] Em outro livro, Menzies afirma que a objetividade de Lucas pode ser verificada na vida dos cristãos. A questão é que os pentecostais têm falhado em alguns momentos para que isso seja real no meio em que estão: “os pentecostais têm falhado em convencer que eles não têm sido capazes de demonstrar que Lucas pretendeu apresentar narrativas-chave de Atos como um modelo de experiência cristã”.[8]
            No site oficial das Assembleias de Deus dos Estados Unidos há dois textos sobre hermenêutica escritos por Gordon Anderson. Neles, Anderson assevera que o método hermenêutico das Assembleias de Deus norte-americanas é o método histórico-gramatical: “Os intérpretes pentecostais cuidadosos concordam com outros evangélicos de que a melhor maneira de interpretar a Bíblia é trabalhar para descobrir o significado pretendido do texto através do uso de métodos histórico-gramaticais”.[9] Mais à frente, Anderson continua:

            A visão correta é reconhecer que o trabalho da teologia é sistematizar os significados objetivos dos versos individuais em um todo coerente. Neste método, os significados originais são obtidos através do método histórico-gramatical, fundamentado na suposição de que eles têm significados fixos e objetivos.[10]
           
            Anderson, em outro momento, critica asperamente os adeptos da hermenêutica pós-moderna:

            Críticos literários centrados no leitor parecem negar que isso seja possível [descobrir a intenção autoral bíblica]. Eu argumento que eles enfatizam tanto os problemas em fazer a hermenêutica que eles a transformam em um esforço infrutífero para escapar de preconceitos pessoais que nunca conseguem chegar a um significado do texto.[11]

            É preciso deixar claro que Anderson admite que pentecostais têm seus entendimentos prévios, chamados por ele de preconceitos, na medida em que eles leem os textos bíblicos. Contudo, os pentecostais permitem que o texto bíblico mude suas perspectivas teológicas quando necessário. Com isto, Anderson, obviamente, reconhece que o texto bíblico possui significado atemporal com o propósito de ser entendido e transformar perspectivas experimentais do leitor. Anderson assim se expressa: “Os pentecostais, como todos os intérpretes têm preconceitos, mas eles o reconhecem e fazem seu trabalho interpretativo de tal maneira como permitir que o texto mude essas premissas teológicas quando necessário”.
            Para minimizar o fato das Assembleias de Deus dos Estados Unidos adotarem o método histórico-gramatical, um adepto do método pós-moderno aqui no Brasil afirmou que as Assembleias de Deus norte-americanas apropriaram-se desse método quando entraram na NAE (National Association of Evangelicals), que é a Associação Nacional de Evangélicos dos Estados Unidos. O ato de minimizar tal fato dá-se pela afirmação de tal adepto do método pós-moderno de que a NAE adota princípios neo-ortodoxos bartianos. Contudo, isto foi afirmado sem nenhum embasamento referenciado. A NAE é justamente conhecida por seu conservadorismo e seu evangelicalismo. Nada de neo-ortodoxia.
            Tal adepto do método pós-moderno de hermenêutica, afirma que Robert Menzies segue três hermeneutas que escreveram um excelente livro de hermenêutica juntos. São eles: William Klein, Craig Blomberg e Robert Hubbard. Sobre eles, afirmou-se que os três são neo-ortodoxos. O mais provável é que o adepto do método pós-moderno tenha se equivocado, pois Klein, Blomberg e Hubbard deixam bem claro no seu volumoso livro de que eles afirmam princípios conservadores e evangélicos e criticam a neo-ortodoxia de Karl Barth e Emil Brunner.[12]
            O espaço aqui não é apropriado para textos longos. Contudo, um artigo acadêmico está sendo preparado por mim acerca do incipiente método hermenêutico pós-moderno aqui no Brasil no meio pentecostal. Tal artigo acadêmico será uma crítica a obras de viés de hermenêutica pós-moderna lançados há pouco tempo, principalmente à obra mais recente.



[1] MCDERMOTT, Gerald. Grandes Teólogos – Uma Síntese do Pensamento Teológico em 21 Séculos de Igreja. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 153.
[2] ZUCK, Roy. A Interpretação Bíblica – Meios de Descobrir a Verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 25.
[3] Ibid, p. 26.
[4] Ibid, p. 10.
[5] KEENER, Craig. A Hermenêutica do Espírito – Lendo as Escrituras à luz do Pentecostes. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 68.
[6] STRONSTAD, Roger. Spirit, Scripture and Theology – A Perspective Pentecostal. Baguio City: APTS, 1995, p. 72.
[7] MENZIES, Robert. Pentecostes – Essa História é a Nossa História. Rio de Janeiro: CPAD, 2016, p. 22.
[8] MENZIES, Rober. Empowered for Witness – The Spirit em Luke-Acts. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1991, p. 246.
[9] ANDERSON, Gordon. Pentecostal Hermeneutics – Part One In: https://ag.org/Beliefs/Our-Core-Doctrines/Resources?fbclid=IwAR0jSK9PEu0JKmNhl-vcNQbRa_FRORMbSfC8qbcJAl-Lx2T0fkxCPrsKojs, visualizado em 29/03/2019.
[10] Ibid.
[11] Ibid.
[12] Cf: KLEIN, William; BLOMBERG, Craig; HUBBARD, Robert. Introdução à Interpretação Bíblica. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. Sobre a afirmação conservadora e evangélica dos autores, cf. p. 248-252. Sobre a crítica à neo-ortodoxia da parte dos autores, cf. p. 129-130.