quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Carta de Edith Schaeffer, Esposa de Francis Schaeffer, Evidenciando-se Não Calvinista

                                     

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Uma indagação que venho considerando há tempos é se Francis Schaeffer seria, de fato, calvinista na soteriologia. Lendo livros dele como O Deus que Intervem e A Verdadeira Espiritualidade, tenho tido dúvidas se ele era um calvinista soteriologicamente falando. Ele usa sempre palavras como "aceitar a Jesus" e afirma que temos escolha no sentido de podermos escolher o contrário do que escolhemos. Anos atrás eu descobri uma carta de Edith Schaeffer em que ela afirma que não crê na expiação limitada nem na graça irresistível. Esta carta ela dirige a Bill Edgard depois que este afirmou que os ataques terroristas no 11 de setembro foram milimetricamente predeterminados por Deus. Ela afirma que o que ela pensa corrobora com o pensamento de seu marido e critica Edgard. Vejamos sua carta. Destaquei em azul a parte, mais ao final, que ela demonstra ter um pensamento arminiano ao invés de calvinista na soteriologia. Texto disponibilizado por Udo Middelmann, genro dos Schaeffer, que também não se via como calvinista na soteriologia. Confira aqui.


2 de julho de 2002 Caro Bill,


Lembro-me de como você tocou seu tipo especial de jazz na Music Conference em Minneapolis/St. Paulo. Barbara estava perto de mim. Eu não apenas gostei da sua música, mas tivemos uma conversa depois que a comida foi servida e uma certa discussão ocorreu.

Como estou morando na Suíça agora, tendo trazido não apenas o piano, mas também todos os meus móveis, que fazem parte de nossa história, estou cercada por lembranças não apenas de latão, madeira e couro, mas também de algo incrível. memória que Deus nos deu para reconstruir conversas e detalhes da vida.

Lembro-me da minha conversa aos 3 ou 4 anos de idade, com uma pequena companheira chinesa declarando a ela a necessidade de saber o que a Bíblia ensina, a urgência de sentir o que as pessoas precisam saber continuou desde esse momento da vida até o presente por surpreendentes lugares e anos diferentes durante meus 87 anos de vida.

Quando eu tinha 6 anos em Monróvia, Califórnia, a caminho da Igreja Batista que frequentamos, passei ferozmente por uma Igreja Católica Romana e uma Igreja Ciência Cristã, acusando meus pais de não serem fortes o suficiente em sua crença, porque se dignaram a andar a passos lentos de maneira digna. "Como você pode….?"

Quando eu estava com Fran[cis] aos 17 anos, decidi dentro de mim, embora não lhe dissesse, que nunca me casaria com ele se ele continuasse na Igreja Presbiteriana a que pertencia com um pastor muito liberal. Certamente não fui derrotada por ter as opiniões que tenho sobre a verdade.

Agora, seu livro [de Bill Edgard] foi lido para mim duas vezes, com uma distância de tempo intermediária. Leia pra Mim? Porque tenho degeneração macular sob a córnea. Infelizmente, não sei ler, mas tenho livros em fita ou alguém lê para mim.

Sua posição atual me entristece. Há muitos anos, Fran saiu com Bob Rayburn, dos professores do Seminário de Westminster e suas discussões teológicas, devido à posição que ocupavam em relação à predestinação e ao livre arbítrio. Eu mais do que concordo com ele e concordo totalmente com ele quando ele se demitiu de Westminster e foi transferido para o recém-fundado seminário teológico, que se reunia nas salas da Escola Dominical do Dr. Laird, onde às cinco da tarde todos corriam para as janelas para assistir ao azul trem a caminho de Washington DC.

Mais tarde, fomos à Holanda sob o Conselho Independente de Missões Estrangeiras Presbiterianas. Não paramos de ser calvinistas, mas lamentamos a posição da Igreja Reformada Holandesa, que parecia excluir qualquer um que não fosse "chamado por Deus para ser reformado holandês" e, portanto, não ir para o céu. Meu marido e Hans Rookmaaker tiveram muitas discussões longas sobre as refeições da Indonésia em um restaurante, com duração de horas, e em seu apartamento. Aliás, Anky e eu tivemos momentos juntos em um banco do lado de fora, orando juntas, porque ela lamentava a falta de realidade naquela igreja e estava com fome de alguém com quem orar pelas necessidades de seus filhos e de outras pessoas com quem se importava. Se tudo já está ordenado, a oração se torna não apenas inútil, mas também uma farsa

Meu próprio histórico era a Missão Interior da China. Como nasci em uma casa na propriedade que era a 1ª estação missionária da CIM, eu estava de acordo com o jovem Hudson Taylor, cuja história me fascinou quando ele se afastou da igreja inglesa Mission Society e de seus programas para ir de burro no interior da China, cultivando sua trança e vestindo roupas chinesas para combinar com os chineses. Meu próprio pai cresceu o cabelo, o suficiente para ter um rabo de cavalo, pois desprezava os estrangeiros que compravam cabelos falsos para prender aos seus.

A CIM tinha como princípio, diferente da Igreja Reformada Holandesa e das Missões Presbiterianas, que eles nunca pedissem dinheiro, mas oravam acreditando que, se estivessem realizando um trabalho aprovado por Deus, ele colocaria no coração e na mente das pessoas a doação. Os primeiros missionários da CIM eram graduados de alto nível de universidades e de famílias de alta posição, que não estavam de acordo com a opinião de suas famílias de que estavam desperdiçando suas vidas na China. Eles ficaram sem aprovação ou apoio visível, acreditando que Deus colocaria no coração das pessoas o envio de dinheiro para as necessidades diárias.

Minha mãe e meu pai se casaram na China e administravam uma escola para meninos e meninas. Eles tinham duas meninas e queriam mais do que qualquer coisa um menino. Quando ele nasceu, eles o nomearam John Eldridge. Aos 9 meses, ele teve disenteria amebiana e morreu por falta de remédio em 6 semanas. Mamãe me disse nos anos seguintes que os olhos dele aumentavam a cada dia e seu corpo ficava cada vez mais magro. Eles não tinham orado? Claro que eles tinham. Eles não haviam feito a obra do Senhor à maneira do Senhor? Claro que eles tinham. Naqueles dias, nenhum missionário poderia voltar ao seu país sem ter passado pelo menos sete anos no exterior.

Meu pai ainda lamentou a morte de seu filho quando ele completou 100 anos. Ele me disse naquele dia: "John Eldridge cresceu para ser homem? Ele ainda será um garotinho? Como vou reconhecê-lo no céu?" Ele disse, olhando para as mãos: "Veja Edith, essas mãos tocavam piano e violão. Por que precisamos fazer essas mudanças?" Meu pai orava todos os dias para que o Senhor voltasse e que num piscar de olhos suas mãos fossem trocadas e que ele descobrisse que podia reconhecer seu filho tão bem quanto sua esposa, que havia ido antes. Ele era um pregador e sempre pregara que a morte é um inimigo e que Cristo voltaria a toda uma geração de pessoas que nunca conheceriam a morte, e esperava ser uma dessa geração. Não concordo com a sua declaração chamando a morte de saída.

A vida eterna, enfatizada na palavra de Deus, enfatiza a palavra VIDA, colocando-a na eternidade.

O 11 de setembro em Nova York parecia ser uma vitória de um grupo perverso de pessoas que queriam criar um crime espetacular contra a América, provando sua força e inteligência. Conseguiu matar milhares de cristãos e incrédulos. Hoje, dois aviões se chocaram contra a Alemanha, um cheio de crianças, o outro um avião de carga pilotado por dois pilotos, preciosos também para suas famílias. As pessoas são todas importantes para famílias e amigos. Um jornal não pode ser simplesmente virado para a próxima página para se afastar das terríveis notícias. A história é real e importa. Deus não é o autor da crueldade ou descuido humano. Deus não orquestra eventos trágicos.

Jesus, que chorou pela morte de Lázaro e clamou em outro momento: "Jerusalém, quantas vezes eu te reuniria como mãe quando ela cria seus filhotes, mas você não quis", é compassivo. Penso em todas as passagens que dizem: "Vire, vire, volte". Quando Cristo diz: "Você não faria", isso implica uma escolha humana genuína.

A Bíblia termina com um convite. "O Espírito e a Noiva dizem: Vinde, e ouça quem ouve, diga: Vinde! Quem estiver com sede, venha e quem quiser, tome o presente gratuito da água da vida." Ap 22:17. Este convite não é feito com uma cerca, mas a todos que estão ao seu alcance.

"Quem quiser" é verdadeiro e não é limitado, mesmo porque a expiação não é limitada. Não acredito em uma expiação limitada. Também não acredito em graça irresistível. Eu acredito que Deus deu escolha aos seres humanos, e essa escolha é real. Ele respeita a escolha negativa e a positiva. Ele criou seres humanos, não por acaso, com mentes que podiam pensar e escolher mesmo depois da queda. Começando com Caim e Abel, você pode ver o fluxo de escolhas positivas e negativas. A Bíblia dá e continua ao longo dos tempos uma forte declaração da existência da escolha humana, o que explica por que essa liberdade gera tragédia e grande alegria.

Espero que você entenda nesta carta que concordo com Udo e Debby quanto às coisas que os perturbaram em seu livro. Eu também tinha lido para mim a (crítica) que Udo escreveu…. Na verdade, achei que deveria ser publicado, porque achei que era um retrato abrangente e preciso do que Fran[cis] e eu ensinamos.

Não sei quando estarei na Filadélfia novamente. Estive recentemente em Nova York e assisti a um concerto no Carnegie Hall. Lembro-me de você e de Barbara com muito carinho e sempre gostamos de tocar piano. Eu tenho um incrível Steinway Baby Grand no meu antigo chalé aqui, que eu gostaria que você pudesse vir brincar.

Com amor, Edith.

Tradução de Marlon Marques

sexta-feira, 29 de março de 2019

PENTECOSTALISMO, EXPERIÊNCIA E INTENÇÃO OBJETIVA DO TEXTO BÍBLICO


            A experiência com o Espírito Santo é algo que todos os cristãos devem buscar. É sabido que todos devem almejar tal experiência. Logo, não vejo que é necessário uma explanação sobre isso. Paulo nos informa que devemos ter experiência por meio das questões atribuladas do nosso dia-a-dia para que possamos ter esperança do encontro com Jesus por causa do amor de Deus derramado pelo Espírito Santo em nossos corações (Rm 5.3-5).
            Uma questão sustentada pelos adeptos do método pós-moderno de hermenêutica é que o método hermenêutico evangélico clássico, o histórico-gramatical, é irmão do método histórico-crítico simplesmente porque a intenção do autor bíblico é buscada pelo leitor. O desejo de buscar o contexto histórico, cultural e análise gramatical para que entendamos o que os autores bíblicos queriam é algo chamado pejorativamente de “racionalista”. Mesmo que o método histórico-gramatical proponha que a Bíblia seja inteiramente inspirada por Deus e o método histórico-crítico proponha que a Bíblia deva ser examinada como qualquer outro livro, os adeptos do método pós-moderno chamam os dois métodos de histórico-crítico. De uma forma apelativa iguala dois métodos que têm propósitos diferentes e os chama de “métodos racionalistas”.
            É verdade que há evangélicos conservadores que adotam o método histórico-crítico, como Howard Marshall, Joachim Jeremias, N. T. Wright, Craig Blomberg, católicos conservadores como Raymond Brown, pentecostais como Robert Menzies e outros. Contudo, não deixam de buscar o sentido pretendido pelo autor bíblico e permanecem crendo que a Bíblia é inteiramente a Palavra de Deus. Se há que se chamar de métodos irmãos o histórico-gramatical e o histórico-crítico somente porque se busca a intenção do autor bíblico, então o método pós-moderno em nada difere do sentimento religioso pregado pelo pai do liberalismo teológico Friedrich Schleiermacher, que desconsiderava a realidade dos eventos bíblicos, mas cria no sentimento religioso, que dava significado da realidade divina na vida da pessoa que sentia tal experiência. Para Schleiermacher:

             A Bíblia contém a verdade somente quando corresponde ao que nossa consciência religiosa nos diz que é verdade. Quando ambas discordam, a Bíblia está errada. Por conseguinte, não podemos conhecer Deus fora de nossa experiência religiosa; só podemos conhecê-lo em relação a nós mesmos, em nosso sentimento de absoluta dependência.[1]
           
            Veja que para Schleiermacher não se pode conhecer Deus fora de nossa experiência religiosa que ultrapassa o significado bíblico. Isto não se parece com o proposto pelo método hermenêutico pós-moderno? Logo, se o método histórico-gramatical e o método histórico-crítico são tão parecidos que os dois são chamados de método histórico-crítico e “racionalista”, por que, então, não se pode igualar o método pós-moderno de hermenêutica bíblica de método shcleiermacheano, portanto, de liberal?
            O método histórico-gramatical lida não com a validação da experiência, mas sim com o que o texto bíblico quer nos passar. O problema de interpretação dos adeptos do método pós-moderno é que somente pelo fato do método histórico-gramatical buscar a intenção do autor bíblico, isso quer dizer que a experiência não deve ser buscada. Não se deve adotar o jogo de soma zero. O método histórico-gramatical não examina a experiência para ter que ser dada ênfase nela para que a interpretação bíblica seja satisfatória. A experiência é filtrada pelo que orienta a Bíblia. É exatamente por isso que há um significado autoral em cada texto bíblico, sejam significados circunstanciais ou atemporais.
            Roy Zuck, hermeneuta conservador, afirma a experiência em seu livro sobre hermenêutica: “A passagem de 1 Coríntios 2.14 também afirma que o irregenerado não entende as coisas espirituais. O verbo grego ginosko (‘compreender’) não significa entender com o intelecto; significa compreender por experiência.”[2] Mais à frente, Zuck afirma algo vital do propósito hermenêutico clássico (histórico-gramatical): “a obra do Espírito na interpretação não quer dizer que ele desvende para alguns intérpretes um sentido ‘oculto’, diferente do significado normal e literal da passagem”.[3] Zuck, ao citar 1 Coríntios 2.14 e quaisquer passagens bíblicas, afirma que a experiência, mediante o Espírito Santo, é algo a ser buscado, mas totalmente de acordo com o que o significado normal e literal das Escrituras que o próprio Espírito santo inspirou.
            Zuck abre o primeiro capítulo de seu livro com a pergunta de Filipe ao eunuco: “Compreendes o que vens lendo?” (At 8.30), ao que Zuck escreve sobre essa passagem: “a pergunta ‘compreendes o que vens lendo?’ indicava a possibilidade de o leitor não estar entendendo, mas, também, que era possível entender”.[4] Percebemos que essa pergunta de Filipe deixa bem claro, ao ler as Escrituras, que o texto bíblico tem um único sentido e que deve ser buscado, do contrário, pouco importava se o eunuco entendesse ou não, o que importaria seria a experiência prévia do eunuco (ou seria o sentimento religioso schleiermacheano?).
            O que chamo de a tríade pentecostal acadêmica de maior relevância, Keener/Stronstad/Menzies, propaga a experiência como altamente necessária na vida do cristão. Craig Keener afirma categoricamente que a experiência é algo notório no ambiente pentecostal. Contudo, a experiência é filtrada pela objetividade das Escrituras:

            A espiritualidade pentecostal sempre leu as Escrituras experiencialmente. Com isso não quero dizer que os cristão pentecostais simplesmente leem as Escrituras à luz de sua experiência, embora isso às vezes seja o caso (e não somente dos pentecostais). Antes, quero dizer que especialmente lemos e desenvolvemos a nossa experiência à luz das Escrituras.[5]

            De acordo com Keener, a experiência é algo extremamente normal para os pentecostais. Entretanto, a experiência é guiada pela objetividade das Escrituras.
            Roger Stronstad deixa bem claro, em um de seus livros, que a experiência carismática do Espírito é um fato real, mas a objetividade bíblica é algo inviolado:

            Incluir a experiência carismática como um elemento na hermenêutica pentecostal não é abrir uma caixa de Pandora do subjetivismo e emocionalismo. Por um lado, a realidade objetiva da Bíblia permanece inviolada. Por outro lado, embora eles estejam em um sentido inseparável, experiência e emoção não são idênticas.[6]
           
            Robert Menzies, que é conhecido pela utilização de métodos histórico-críticos, não alija a experiência como algo essencial da fé pentecostal. Ele afirma que “a hermenêutica do crente pentecostal típico é direta e simples: as histórias em Atos são minhas histórias – histórias que foram escritas para servir de modelo para moldar a minha vida e experiência”.[7] Em outro livro, Menzies afirma que a objetividade de Lucas pode ser verificada na vida dos cristãos. A questão é que os pentecostais têm falhado em alguns momentos para que isso seja real no meio em que estão: “os pentecostais têm falhado em convencer que eles não têm sido capazes de demonstrar que Lucas pretendeu apresentar narrativas-chave de Atos como um modelo de experiência cristã”.[8]
            No site oficial das Assembleias de Deus dos Estados Unidos há dois textos sobre hermenêutica escritos por Gordon Anderson. Neles, Anderson assevera que o método hermenêutico das Assembleias de Deus norte-americanas é o método histórico-gramatical: “Os intérpretes pentecostais cuidadosos concordam com outros evangélicos de que a melhor maneira de interpretar a Bíblia é trabalhar para descobrir o significado pretendido do texto através do uso de métodos histórico-gramaticais”.[9] Mais à frente, Anderson continua:

            A visão correta é reconhecer que o trabalho da teologia é sistematizar os significados objetivos dos versos individuais em um todo coerente. Neste método, os significados originais são obtidos através do método histórico-gramatical, fundamentado na suposição de que eles têm significados fixos e objetivos.[10]
           
            Anderson, em outro momento, critica asperamente os adeptos da hermenêutica pós-moderna:

            Críticos literários centrados no leitor parecem negar que isso seja possível [descobrir a intenção autoral bíblica]. Eu argumento que eles enfatizam tanto os problemas em fazer a hermenêutica que eles a transformam em um esforço infrutífero para escapar de preconceitos pessoais que nunca conseguem chegar a um significado do texto.[11]

            É preciso deixar claro que Anderson admite que pentecostais têm seus entendimentos prévios, chamados por ele de preconceitos, na medida em que eles leem os textos bíblicos. Contudo, os pentecostais permitem que o texto bíblico mude suas perspectivas teológicas quando necessário. Com isto, Anderson, obviamente, reconhece que o texto bíblico possui significado atemporal com o propósito de ser entendido e transformar perspectivas experimentais do leitor. Anderson assim se expressa: “Os pentecostais, como todos os intérpretes têm preconceitos, mas eles o reconhecem e fazem seu trabalho interpretativo de tal maneira como permitir que o texto mude essas premissas teológicas quando necessário”.
            Para minimizar o fato das Assembleias de Deus dos Estados Unidos adotarem o método histórico-gramatical, um adepto do método pós-moderno aqui no Brasil afirmou que as Assembleias de Deus norte-americanas apropriaram-se desse método quando entraram na NAE (National Association of Evangelicals), que é a Associação Nacional de Evangélicos dos Estados Unidos. O ato de minimizar tal fato dá-se pela afirmação de tal adepto do método pós-moderno de que a NAE adota princípios neo-ortodoxos bartianos. Contudo, isto foi afirmado sem nenhum embasamento referenciado. A NAE é justamente conhecida por seu conservadorismo e seu evangelicalismo. Nada de neo-ortodoxia.
            Tal adepto do método pós-moderno de hermenêutica, afirma que Robert Menzies segue três hermeneutas que escreveram um excelente livro de hermenêutica juntos. São eles: William Klein, Craig Blomberg e Robert Hubbard. Sobre eles, afirmou-se que os três são neo-ortodoxos. O mais provável é que o adepto do método pós-moderno tenha se equivocado, pois Klein, Blomberg e Hubbard deixam bem claro no seu volumoso livro de que eles afirmam princípios conservadores e evangélicos e criticam a neo-ortodoxia de Karl Barth e Emil Brunner.[12]
            O espaço aqui não é apropriado para textos longos. Contudo, um artigo acadêmico está sendo preparado por mim acerca do incipiente método hermenêutico pós-moderno aqui no Brasil no meio pentecostal. Tal artigo acadêmico será uma crítica a obras de viés de hermenêutica pós-moderna lançados há pouco tempo, principalmente à obra mais recente.



[1] MCDERMOTT, Gerald. Grandes Teólogos – Uma Síntese do Pensamento Teológico em 21 Séculos de Igreja. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 153.
[2] ZUCK, Roy. A Interpretação Bíblica – Meios de Descobrir a Verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 25.
[3] Ibid, p. 26.
[4] Ibid, p. 10.
[5] KEENER, Craig. A Hermenêutica do Espírito – Lendo as Escrituras à luz do Pentecostes. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 68.
[6] STRONSTAD, Roger. Spirit, Scripture and Theology – A Perspective Pentecostal. Baguio City: APTS, 1995, p. 72.
[7] MENZIES, Robert. Pentecostes – Essa História é a Nossa História. Rio de Janeiro: CPAD, 2016, p. 22.
[8] MENZIES, Rober. Empowered for Witness – The Spirit em Luke-Acts. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1991, p. 246.
[9] ANDERSON, Gordon. Pentecostal Hermeneutics – Part One In: https://ag.org/Beliefs/Our-Core-Doctrines/Resources?fbclid=IwAR0jSK9PEu0JKmNhl-vcNQbRa_FRORMbSfC8qbcJAl-Lx2T0fkxCPrsKojs, visualizado em 29/03/2019.
[10] Ibid.
[11] Ibid.
[12] Cf: KLEIN, William; BLOMBERG, Craig; HUBBARD, Robert. Introdução à Interpretação Bíblica. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. Sobre a afirmação conservadora e evangélica dos autores, cf. p. 248-252. Sobre a crítica à neo-ortodoxia da parte dos autores, cf. p. 129-130.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Sobre o livro O Pentecostal Reformado de Walter e John McAlister

Eu venho lecionando em vários seminários pentecostais e lendo rotineiramente sobre a teologia pentecostal. Ao ler o livro O Pentecostal Reformado dos McAlister pai e filho, vejo uma confusão sobre o termo. O termo "pentecostal reformado" não é uma novidade deles, como entendi que eles querem passar no livro. Esse termo é referido aos pentecostais da obra consumada, que creem nas duas bênçãos, a saber, conversão e batismo no Espírito Santo (alguns desse ramo do pentecostalismo não usam mais esse termo duas bênçãos) que divergem dos pentecostais de santidade ou holiness, que criam nas três bênçãos, que são a conversão, inteira santificação e batismo no Espírito Santo. Por isso o termo "pentecostais reformados", porque é um ramo que "reformou" o entendimento pentecostal. As Assembleias de Deus e a Igreja Quadrangular, por exemplo, são pentecostais reformadas. A Igreja de Deus no Brasil (Church of God - Cleveland) e a Igreja de Deus em Cristo (Church of God in Christ) são igrejas pentecostais de santidade. Reiterando que o termo "reformado", nesse caso, não tem nada a ver com soteriologia. Logo, os McAlister não criaram nada de novo, sendo que o termo "pentecostal reformado" já existia.

Sobre ser pentecostal, é sabido que ser pentecostal é crer que o batismo no Espírito Santo acontece depois da conversão. Contudo, os McAlister veem que o batismo no Espírito Santo dá-se na conversão. Isso vai de encontro com a teologia pentecostal. Não dá para ser pentecostal e crer no batismo no Espírito Santo na conversão. Gordon Fee, eminente teólogo bíblico, é ligado às Assembleias de Deus, contudo, é altamente criticado pelos teólogos pentecostais por causa da incongruência de não crer no batismo no Espírito Santo como algo posterior à conversão. Portanto, penso, como muitos críticos da obra já afirmaram, que os McAlister não são pentecostais reformados, mas sim carismáticos reformados ou continuístas reformados.

É até curioso o fato dos McAlister se afirmarem como pentecostais reformados e negarem que existam arminianos reformados. Armínio era pastor de uma igreja reformada na Holanda. Ele cria no aliancismo (inclusive o pedobatismo que os McAlister negam), eclesiologia reformada, Catecismo de Heildelberg e Confissão Belga (as duas confissões reformadas da época). Armínio não cria, evidentemente, no que veio a ser a TULIP (embora ele cresse na depravação total e, segundo alguns, na perseverança dos santos. Este último é um ponto de discussão). Além do mais, há arminianos que se declaram arminianos da Reforma ou arminianos reformados. Se os McAlister querem propor um pentecostalismo reformado por que, sem argumento sólido apresentado, negam que arminianismo reformado não existe? Na apresentação do livro, Franklin Ferreira chega a uma afirmação destoante e espúria que o arminianismo é um protestantismo sem reforma. Os McAlister fazem uma crítica à doutrina arminiana da graça preveniente afirmando que não tem respaldo bíblico. Sugiro a eles o livro Graça Preveniente de Valmir Nascimento (ed. Reflexão) e o livro Prevenient Grace de Brian Shelton. Nestes livros eles encontrarão bases argumentativas e bíblicas para a graça preveniente.

Para finalizar, constatei que os autores do livro analisado não dialogaram muito com teólogos acadêmicos pentecostais, mas sim, com, majoritariamente, escritores pentecostais não acadêmicos. Assim fica difícil retratar bem acerca do que se critica ou analisa. Citar Benny Hinn, T. L. Osborn, Valnice Milhomens ao invés de Roger Stronstad, Stanley Horton, William e Robert Menzies (este citado parcamente), Antonio Gilberto, Claudionor de Andrade e outros não é auspicioso.

Na minha opinião, de acordo com o que analisei sucintamente acima, o livro O Pentecostal Reformado não tem nada de pentecostal.


sábado, 3 de março de 2018

Deus Realmente nos Salva Somente pela Fé? (escrito por John Piper)


    


    No meu [Marlon] último artigo neste blog, escrevi sobre a dupla justificação, que somos justificados inicialmente somente pela fé, mas que seremos justificados pelas obras (santidade e serviço) no final. Recebi algumas críticas. Este é apenas o modo wesleyano de entender a justificação. Contudo, o teólogo batista calvinista John Piper também tem esse entendimento. Piper entende a dupla justificação exatamente como um bom wesleyano. Foi uma surpresa para mim ler este artigo dele, escrito no final do ano passado! Vejamos o que Piper, um dos mais admirados teólogos calvinistas conservadores, tem a nos acrescentar sobre a dupla justificação. Veja aqui também o texto original em inglês.
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    Os primeiros grandes reformadores como Martinho Lutero, João Calvino e Ulrico Zwinglio nunca resumiram seus ensinamentos com o conjunto arrumado de cinco frases que agora conhecemos como os cinco solas . Os solas se desenvolveram ao longo do tempo como uma forma de capturar a essência do que a Reforma era, principalmente em sua disputa com a Igreja Católica Romana.

    Sola é a palavra latina para "somente" ou "apenas". Os cinco solas são sola gratia (somente por graça), solo Christo (somente com base em Cristo), sola fide ( somente através da fé) soli Deo gloria ( para a suprema glória de Deus sozinho), Sola Scriptura (como ensinado, somente a autoridade final e decisiva da Escritura).

Justificação Somente

    Eu acho que esses cinco solas podem ser preciosamente iluminados, tanto para o cerne da Reforma quanto para a essência do próprio evangelho cristão, o que, claro, foi fundamental para a disputa. Eu digo que eles podem ser úteis porque cinco frases preposicionais penduradas no ar, sem nenhuma cláusula para modificar, não são úteis para deixar claro aquilo sobre a grande controvérsia da Reforma, nem esclarecem a essência do verdadeiro evangelho cristão.
    A cláusula que permite que essas frases preposicionais modificadoras façam seu trabalho maravilhosamente esclarecedor, por causa da essência do evangelho e do coração da Reforma, é: somos justificados perante Deus. . . ou Justificação perante Deus é. . .
    Somente após a justificação, as cinco frases preposicionais seguem e fazem seu trabalho magnífico para definir e proteger o evangelho de toda diluição não bíblica. Somos justificados por Deus somente pela graça ; com base somente no sangue de Cristo e na justiça; através dos meios, ou instrumento, de fé somente ; para a suprema glória de Deus somente; como ensinado, com a autoridade final e decisiva somente na Escritura . Todas as cinco frases servem para modificar a obra de justificação de Deus - como os pecadores ganham uma posição correta com Deus para que ele seja cem por cento para nós e não contra nós.

Não Substitua os Solas

    Se você substituir outras cláusulas além de "Nós somos justificados . .  como "Nós somos santificados" . . ou "Nós seremos finalmente salvos no último julgamento. . ", então o significado de algumas dessas frases preposicionais deve ser alterado para ser fiel à Escritura. Por exemplo,
  • Na justificação , a fé recebe uma obra acabada de Cristo realizada fora de nós e contada como a nossa - imputada a nós.
  • Na santificação , a fé recebe um poder contínuo de Cristo que trabalha dentro de nós para a santidade prática.
  • Na salvação final no último julgamento, a fé é confirmada pelo fruto santificador que exerceu, e somos salvos através desse fruto e fé. Como Paulo diz em 2 Tessalonicenses 2:13 , "Deus escolheu você como primícias para ser salvo, por meio da santificação pelo Espírito e crença na verdade ".

Como somos finalmente salvos?

    Especialmente no que diz respeito à salvação final, muitos de nós vivemos em um nevoeiro de confusão. Tiago viu em seu dia aqueles que estavam tratando a "fé somente" como uma doutrina que afirmou que você poderia ser justificado pela fé que não produzia boas obras. E ele veementemente asseverou não a tal fé.
    Então, ele diz: "Vou mostrar-lhe a minha fé pelas minhas obras" (2:18). As obras virão da fé.
    Paulo afirmou tudo isso, porque ele disse em Gálatas 5: 6: "Em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão contam para qualquer coisa, mas apenas a fé que opera através do amor ". O único tipo de fé que conta para a justificação é o tipo que produz amor - o tipo que traz o fruto do amor. A fé que só justifica nunca está sozinha, mas sempre atua com frutos transformadores. Então, quando Tiago diz estas palavras polêmicas: "Uma pessoa é justificada pelas obras e não apenas pela fé" ( Tiago 2:24 ), considero que não significa pela fé somente, mas que se mostra pelas obras.
    Paulo chama esse efeito ou fruto ou prova de fé a "obra da fé" ( 1 Tessalonicenses 1: 3 ; 2 Tessalonicenses 1:11 ) e a "obediência da fé" ( Romanos 1: 5 ; 16:26 ). Essas obras de fé, e esta obediência da fé, esses frutos do Espírito que vem pela fé, são necessários para nossa salvação final. Sem santidade, sem Céu ( Hebreus 12:14 ). Portanto, não devemos falar de chegar ao Céu apenas pela fé, da mesma forma que somos justificados apenas pela fé.
    Essencial para a vida cristã e necessário para a salvação final é a morte do pecado ( Romanos 8:13 ) e a busca da santidade ( Hebreus 12:14 ). Mortificação do pecado, santificação em santidade. Mas o que torna isso possível e agradável a Deus? Nós matamos o pecado e buscamos a santidade de uma posição justificada em que Deus é cem por cento para nós - já - somente pela fé.

Primeiro bíblico, depois Reformado

    Portanto, a fé não significa o mesmo quando aplicado à justificação, santificação e salvação final. Você pode ver que extraordinário cuidado e precisão é ser chamado para ser fiel à Escritura ao usar os cinco solas. E uma vez que a "Escritura somente" é a nossa autoridade final e decisiva, ser fiel à Escritura é o objetivo. Pretendemos ser bíblicos primeiro - e reformado apenas quando está de acordo com a Escritura.
    Os cinco solas fornecem uma claridade maravilhosa sobre o cerne da Reforma e o coração do evangelho, se a cláusula que as cinco frases preposicionais modificantes é "Justificação perante Deus é. . "Justificação perante Deus é somente pela graça , sem nenhum favor merecido; somente com base em Cristo , sem nenhum outro sacrifício ou justiça como fundamento; através apenas da fé , não incluindo qualquer obra humana; até o objetivo que todas as coisas levam, em última instância, apenas a glória de Deus; como ensinado com autoridade final e decisiva nas Escrituras somente.