sexta-feira, 29 de março de 2019

PENTECOSTALISMO, EXPERIÊNCIA E INTENÇÃO OBJETIVA DO TEXTO BÍBLICO


            A experiência com o Espírito Santo é algo que todos os cristãos devem buscar. É sabido que todos devem almejar tal experiência. Logo, não vejo que é necessário uma explanação sobre isso. Paulo nos informa que devemos ter experiência por meio das questões atribuladas do nosso dia-a-dia para que possamos ter esperança do encontro com Jesus por causa do amor de Deus derramado pelo Espírito Santo em nossos corações (Rm 5.3-5).
            Uma questão sustentada pelos adeptos do método pós-moderno de hermenêutica é que o método hermenêutico evangélico clássico, o histórico-gramatical, é irmão do método histórico-crítico simplesmente porque a intenção do autor bíblico é buscada pelo leitor. O desejo de buscar o contexto histórico, cultural e análise gramatical para que entendamos o que os autores bíblicos queriam é algo chamado pejorativamente de “racionalista”. Mesmo que o método histórico-gramatical proponha que a Bíblia seja inteiramente inspirada por Deus e o método histórico-crítico proponha que a Bíblia deva ser examinada como qualquer outro livro, os adeptos do método pós-moderno chamam os dois métodos de histórico-crítico. De uma forma apelativa iguala dois métodos que têm propósitos diferentes e os chama de “métodos racionalistas”.
            É verdade que há evangélicos conservadores que adotam o método histórico-crítico, como Howard Marshall, Joachim Jeremias, N. T. Wright, Craig Blomberg, católicos conservadores como Raymond Brown, pentecostais como Robert Menzies e outros. Contudo, não deixam de buscar o sentido pretendido pelo autor bíblico e permanecem crendo que a Bíblia é inteiramente a Palavra de Deus. Se há que se chamar de métodos irmãos o histórico-gramatical e o histórico-crítico somente porque se busca a intenção do autor bíblico, então o método pós-moderno em nada difere do sentimento religioso pregado pelo pai do liberalismo teológico Friedrich Schleiermacher, que desconsiderava a realidade dos eventos bíblicos, mas cria no sentimento religioso, que dava significado da realidade divina na vida da pessoa que sentia tal experiência. Para Schleiermacher:

             A Bíblia contém a verdade somente quando corresponde ao que nossa consciência religiosa nos diz que é verdade. Quando ambas discordam, a Bíblia está errada. Por conseguinte, não podemos conhecer Deus fora de nossa experiência religiosa; só podemos conhecê-lo em relação a nós mesmos, em nosso sentimento de absoluta dependência.[1]
           
            Veja que para Schleiermacher não se pode conhecer Deus fora de nossa experiência religiosa que ultrapassa o significado bíblico. Isto não se parece com o proposto pelo método hermenêutico pós-moderno? Logo, se o método histórico-gramatical e o método histórico-crítico são tão parecidos que os dois são chamados de método histórico-crítico e “racionalista”, por que, então, não se pode igualar o método pós-moderno de hermenêutica bíblica de método shcleiermacheano, portanto, de liberal?
            O método histórico-gramatical lida não com a validação da experiência, mas sim com o que o texto bíblico quer nos passar. O problema de interpretação dos adeptos do método pós-moderno é que somente pelo fato do método histórico-gramatical buscar a intenção do autor bíblico, isso quer dizer que a experiência não deve ser buscada. Não se deve adotar o jogo de soma zero. O método histórico-gramatical não examina a experiência para ter que ser dada ênfase nela para que a interpretação bíblica seja satisfatória. A experiência é filtrada pelo que orienta a Bíblia. É exatamente por isso que há um significado autoral em cada texto bíblico, sejam significados circunstanciais ou atemporais.
            Roy Zuck, hermeneuta conservador, afirma a experiência em seu livro sobre hermenêutica: “A passagem de 1 Coríntios 2.14 também afirma que o irregenerado não entende as coisas espirituais. O verbo grego ginosko (‘compreender’) não significa entender com o intelecto; significa compreender por experiência.”[2] Mais à frente, Zuck afirma algo vital do propósito hermenêutico clássico (histórico-gramatical): “a obra do Espírito na interpretação não quer dizer que ele desvende para alguns intérpretes um sentido ‘oculto’, diferente do significado normal e literal da passagem”.[3] Zuck, ao citar 1 Coríntios 2.14 e quaisquer passagens bíblicas, afirma que a experiência, mediante o Espírito Santo, é algo a ser buscado, mas totalmente de acordo com o que o significado normal e literal das Escrituras que o próprio Espírito santo inspirou.
            Zuck abre o primeiro capítulo de seu livro com a pergunta de Filipe ao eunuco: “Compreendes o que vens lendo?” (At 8.30), ao que Zuck escreve sobre essa passagem: “a pergunta ‘compreendes o que vens lendo?’ indicava a possibilidade de o leitor não estar entendendo, mas, também, que era possível entender”.[4] Percebemos que essa pergunta de Filipe deixa bem claro, ao ler as Escrituras, que o texto bíblico tem um único sentido e que deve ser buscado, do contrário, pouco importava se o eunuco entendesse ou não, o que importaria seria a experiência prévia do eunuco (ou seria o sentimento religioso schleiermacheano?).
            O que chamo de a tríade pentecostal acadêmica de maior relevância, Keener/Stronstad/Menzies, propaga a experiência como altamente necessária na vida do cristão. Craig Keener afirma categoricamente que a experiência é algo notório no ambiente pentecostal. Contudo, a experiência é filtrada pela objetividade das Escrituras:

            A espiritualidade pentecostal sempre leu as Escrituras experiencialmente. Com isso não quero dizer que os cristão pentecostais simplesmente leem as Escrituras à luz de sua experiência, embora isso às vezes seja o caso (e não somente dos pentecostais). Antes, quero dizer que especialmente lemos e desenvolvemos a nossa experiência à luz das Escrituras.[5]

            De acordo com Keener, a experiência é algo extremamente normal para os pentecostais. Entretanto, a experiência é guiada pela objetividade das Escrituras.
            Roger Stronstad deixa bem claro, em um de seus livros, que a experiência carismática do Espírito é um fato real, mas a objetividade bíblica é algo inviolado:

            Incluir a experiência carismática como um elemento na hermenêutica pentecostal não é abrir uma caixa de Pandora do subjetivismo e emocionalismo. Por um lado, a realidade objetiva da Bíblia permanece inviolada. Por outro lado, embora eles estejam em um sentido inseparável, experiência e emoção não são idênticas.[6]
           
            Robert Menzies, que é conhecido pela utilização de métodos histórico-críticos, não alija a experiência como algo essencial da fé pentecostal. Ele afirma que “a hermenêutica do crente pentecostal típico é direta e simples: as histórias em Atos são minhas histórias – histórias que foram escritas para servir de modelo para moldar a minha vida e experiência”.[7] Em outro livro, Menzies afirma que a objetividade de Lucas pode ser verificada na vida dos cristãos. A questão é que os pentecostais têm falhado em alguns momentos para que isso seja real no meio em que estão: “os pentecostais têm falhado em convencer que eles não têm sido capazes de demonstrar que Lucas pretendeu apresentar narrativas-chave de Atos como um modelo de experiência cristã”.[8]
            No site oficial das Assembleias de Deus dos Estados Unidos há dois textos sobre hermenêutica escritos por Gordon Anderson. Neles, Anderson assevera que o método hermenêutico das Assembleias de Deus norte-americanas é o método histórico-gramatical: “Os intérpretes pentecostais cuidadosos concordam com outros evangélicos de que a melhor maneira de interpretar a Bíblia é trabalhar para descobrir o significado pretendido do texto através do uso de métodos histórico-gramaticais”.[9] Mais à frente, Anderson continua:

            A visão correta é reconhecer que o trabalho da teologia é sistematizar os significados objetivos dos versos individuais em um todo coerente. Neste método, os significados originais são obtidos através do método histórico-gramatical, fundamentado na suposição de que eles têm significados fixos e objetivos.[10]
           
            Anderson, em outro momento, critica asperamente os adeptos da hermenêutica pós-moderna:

            Críticos literários centrados no leitor parecem negar que isso seja possível [descobrir a intenção autoral bíblica]. Eu argumento que eles enfatizam tanto os problemas em fazer a hermenêutica que eles a transformam em um esforço infrutífero para escapar de preconceitos pessoais que nunca conseguem chegar a um significado do texto.[11]

            É preciso deixar claro que Anderson admite que pentecostais têm seus entendimentos prévios, chamados por ele de preconceitos, na medida em que eles leem os textos bíblicos. Contudo, os pentecostais permitem que o texto bíblico mude suas perspectivas teológicas quando necessário. Com isto, Anderson, obviamente, reconhece que o texto bíblico possui significado atemporal com o propósito de ser entendido e transformar perspectivas experimentais do leitor. Anderson assim se expressa: “Os pentecostais, como todos os intérpretes têm preconceitos, mas eles o reconhecem e fazem seu trabalho interpretativo de tal maneira como permitir que o texto mude essas premissas teológicas quando necessário”.
            Para minimizar o fato das Assembleias de Deus dos Estados Unidos adotarem o método histórico-gramatical, um adepto do método pós-moderno aqui no Brasil afirmou que as Assembleias de Deus norte-americanas apropriaram-se desse método quando entraram na NAE (National Association of Evangelicals), que é a Associação Nacional de Evangélicos dos Estados Unidos. O ato de minimizar tal fato dá-se pela afirmação de tal adepto do método pós-moderno de que a NAE adota princípios neo-ortodoxos bartianos. Contudo, isto foi afirmado sem nenhum embasamento referenciado. A NAE é justamente conhecida por seu conservadorismo e seu evangelicalismo. Nada de neo-ortodoxia.
            Tal adepto do método pós-moderno de hermenêutica, afirma que Robert Menzies segue três hermeneutas que escreveram um excelente livro de hermenêutica juntos. São eles: William Klein, Craig Blomberg e Robert Hubbard. Sobre eles, afirmou-se que os três são neo-ortodoxos. O mais provável é que o adepto do método pós-moderno tenha se equivocado, pois Klein, Blomberg e Hubbard deixam bem claro no seu volumoso livro de que eles afirmam princípios conservadores e evangélicos e criticam a neo-ortodoxia de Karl Barth e Emil Brunner.[12]
            O espaço aqui não é apropriado para textos longos. Contudo, um artigo acadêmico está sendo preparado por mim acerca do incipiente método hermenêutico pós-moderno aqui no Brasil no meio pentecostal. Tal artigo acadêmico será uma crítica a obras de viés de hermenêutica pós-moderna lançados há pouco tempo, principalmente à obra mais recente.



[1] MCDERMOTT, Gerald. Grandes Teólogos – Uma Síntese do Pensamento Teológico em 21 Séculos de Igreja. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 153.
[2] ZUCK, Roy. A Interpretação Bíblica – Meios de Descobrir a Verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 25.
[3] Ibid, p. 26.
[4] Ibid, p. 10.
[5] KEENER, Craig. A Hermenêutica do Espírito – Lendo as Escrituras à luz do Pentecostes. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 68.
[6] STRONSTAD, Roger. Spirit, Scripture and Theology – A Perspective Pentecostal. Baguio City: APTS, 1995, p. 72.
[7] MENZIES, Robert. Pentecostes – Essa História é a Nossa História. Rio de Janeiro: CPAD, 2016, p. 22.
[8] MENZIES, Rober. Empowered for Witness – The Spirit em Luke-Acts. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1991, p. 246.
[9] ANDERSON, Gordon. Pentecostal Hermeneutics – Part One In: https://ag.org/Beliefs/Our-Core-Doctrines/Resources?fbclid=IwAR0jSK9PEu0JKmNhl-vcNQbRa_FRORMbSfC8qbcJAl-Lx2T0fkxCPrsKojs, visualizado em 29/03/2019.
[10] Ibid.
[11] Ibid.
[12] Cf: KLEIN, William; BLOMBERG, Craig; HUBBARD, Robert. Introdução à Interpretação Bíblica. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. Sobre a afirmação conservadora e evangélica dos autores, cf. p. 248-252. Sobre a crítica à neo-ortodoxia da parte dos autores, cf. p. 129-130.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Sobre o livro O Pentecostal Reformado de Walter e John McAlister

Eu venho lecionando em vários seminários pentecostais e lendo rotineiramente sobre a teologia pentecostal. Ao ler o livro O Pentecostal Reformado dos McAlister pai e filho, vejo uma confusão sobre o termo. O termo "pentecostal reformado" não é uma novidade deles, como entendi que eles querem passar no livro. Esse termo é referido aos pentecostais da obra consumada, que creem nas duas bênçãos, a saber, conversão e batismo no Espírito Santo (alguns desse ramo do pentecostalismo não usam mais esse termo duas bênçãos) que divergem dos pentecostais de santidade ou holiness, que criam nas três bênçãos, que são a conversão, inteira santificação e batismo no Espírito Santo. Por isso o termo "pentecostais reformados", porque é um ramo que "reformou" o entendimento pentecostal. As Assembleias de Deus e a Igreja Quadrangular, por exemplo, são pentecostais reformadas. A Igreja de Deus no Brasil (Church of God - Cleveland) e a Igreja de Deus em Cristo (Church of God in Christ) são igrejas pentecostais de santidade. Reiterando que o termo "reformado", nesse caso, não tem nada a ver com soteriologia. Logo, os McAlister não criaram nada de novo, sendo que o termo "pentecostal reformado" já existia.

Sobre ser pentecostal, é sabido que ser pentecostal é crer que o batismo no Espírito Santo acontece depois da conversão. Contudo, os McAlister veem que o batismo no Espírito Santo dá-se na conversão. Isso vai de encontro com a teologia pentecostal. Não dá para ser pentecostal e crer no batismo no Espírito Santo na conversão. Gordon Fee, eminente teólogo bíblico, é ligado às Assembleias de Deus, contudo, é altamente criticado pelos teólogos pentecostais por causa da incongruência de não crer no batismo no Espírito Santo como algo posterior à conversão. Portanto, penso, como muitos críticos da obra já afirmaram, que os McAlister não são pentecostais reformados, mas sim carismáticos reformados ou continuístas reformados.

É até curioso o fato dos McAlister se afirmarem como pentecostais reformados e negarem que existam arminianos reformados. Armínio era pastor de uma igreja reformada na Holanda. Ele cria no aliancismo (inclusive o pedobatismo que os McAlister negam), eclesiologia reformada, Catecismo de Heildelberg e Confissão Belga (as duas confissões reformadas da época). Armínio não cria, evidentemente, no que veio a ser a TULIP (embora ele cresse na depravação total e, segundo alguns, na perseverança dos santos. Este último é um ponto de discussão). Além do mais, há arminianos que se declaram arminianos da Reforma ou arminianos reformados. Se os McAlister querem propor um pentecostalismo reformado por que, sem argumento sólido apresentado, negam que arminianismo reformado não existe? Na apresentação do livro, Franklin Ferreira chega a uma afirmação destoante e espúria que o arminianismo é um protestantismo sem reforma. Os McAlister fazem uma crítica à doutrina arminiana da graça preveniente afirmando que não tem respaldo bíblico. Sugiro a eles o livro Graça Preveniente de Valmir Nascimento (ed. Reflexão) e o livro Prevenient Grace de Brian Shelton. Nestes livros eles encontrarão bases argumentativas e bíblicas para a graça preveniente.

Para finalizar, constatei que os autores do livro analisado não dialogaram muito com teólogos acadêmicos pentecostais, mas sim, com, majoritariamente, escritores pentecostais não acadêmicos. Assim fica difícil retratar bem acerca do que se critica ou analisa. Citar Benny Hinn, T. L. Osborn, Valnice Milhomens ao invés de Roger Stronstad, Stanley Horton, William e Robert Menzies (este citado parcamente), Antonio Gilberto, Claudionor de Andrade e outros não é auspicioso.

Na minha opinião, de acordo com o que analisei sucintamente acima, o livro O Pentecostal Reformado não tem nada de pentecostal.


sábado, 3 de março de 2018

Deus Realmente nos Salva Somente pela Fé? (escrito por John Piper)


    


    No meu [Marlon] último artigo neste blog, escrevi sobre a dupla justificação, que somos justificados inicialmente somente pela fé, mas que seremos justificados pelas obras (santidade e serviço) no final. Recebi algumas críticas. Este é apenas o modo wesleyano de entender a justificação. Contudo, o teólogo batista calvinista John Piper também tem esse entendimento. Piper entende a dupla justificação exatamente como um bom wesleyano. Foi uma surpresa para mim ler este artigo dele, escrito no final do ano passado! Vejamos o que Piper, um dos mais admirados teólogos calvinistas conservadores, tem a nos acrescentar sobre a dupla justificação. Veja aqui também o texto original em inglês.
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    Os primeiros grandes reformadores como Martinho Lutero, João Calvino e Ulrico Zwinglio nunca resumiram seus ensinamentos com o conjunto arrumado de cinco frases que agora conhecemos como os cinco solas . Os solas se desenvolveram ao longo do tempo como uma forma de capturar a essência do que a Reforma era, principalmente em sua disputa com a Igreja Católica Romana.

    Sola é a palavra latina para "somente" ou "apenas". Os cinco solas são sola gratia (somente por graça), solo Christo (somente com base em Cristo), sola fide ( somente através da fé) soli Deo gloria ( para a suprema glória de Deus sozinho), Sola Scriptura (como ensinado, somente a autoridade final e decisiva da Escritura).

Justificação Somente

    Eu acho que esses cinco solas podem ser preciosamente iluminados, tanto para o cerne da Reforma quanto para a essência do próprio evangelho cristão, o que, claro, foi fundamental para a disputa. Eu digo que eles podem ser úteis porque cinco frases preposicionais penduradas no ar, sem nenhuma cláusula para modificar, não são úteis para deixar claro aquilo sobre a grande controvérsia da Reforma, nem esclarecem a essência do verdadeiro evangelho cristão.
    A cláusula que permite que essas frases preposicionais modificadoras façam seu trabalho maravilhosamente esclarecedor, por causa da essência do evangelho e do coração da Reforma, é: somos justificados perante Deus. . . ou Justificação perante Deus é. . .
    Somente após a justificação, as cinco frases preposicionais seguem e fazem seu trabalho magnífico para definir e proteger o evangelho de toda diluição não bíblica. Somos justificados por Deus somente pela graça ; com base somente no sangue de Cristo e na justiça; através dos meios, ou instrumento, de fé somente ; para a suprema glória de Deus somente; como ensinado, com a autoridade final e decisiva somente na Escritura . Todas as cinco frases servem para modificar a obra de justificação de Deus - como os pecadores ganham uma posição correta com Deus para que ele seja cem por cento para nós e não contra nós.

Não Substitua os Solas

    Se você substituir outras cláusulas além de "Nós somos justificados . .  como "Nós somos santificados" . . ou "Nós seremos finalmente salvos no último julgamento. . ", então o significado de algumas dessas frases preposicionais deve ser alterado para ser fiel à Escritura. Por exemplo,
  • Na justificação , a fé recebe uma obra acabada de Cristo realizada fora de nós e contada como a nossa - imputada a nós.
  • Na santificação , a fé recebe um poder contínuo de Cristo que trabalha dentro de nós para a santidade prática.
  • Na salvação final no último julgamento, a fé é confirmada pelo fruto santificador que exerceu, e somos salvos através desse fruto e fé. Como Paulo diz em 2 Tessalonicenses 2:13 , "Deus escolheu você como primícias para ser salvo, por meio da santificação pelo Espírito e crença na verdade ".

Como somos finalmente salvos?

    Especialmente no que diz respeito à salvação final, muitos de nós vivemos em um nevoeiro de confusão. Tiago viu em seu dia aqueles que estavam tratando a "fé somente" como uma doutrina que afirmou que você poderia ser justificado pela fé que não produzia boas obras. E ele veementemente asseverou não a tal fé.
    Então, ele diz: "Vou mostrar-lhe a minha fé pelas minhas obras" (2:18). As obras virão da fé.
    Paulo afirmou tudo isso, porque ele disse em Gálatas 5: 6: "Em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão contam para qualquer coisa, mas apenas a fé que opera através do amor ". O único tipo de fé que conta para a justificação é o tipo que produz amor - o tipo que traz o fruto do amor. A fé que só justifica nunca está sozinha, mas sempre atua com frutos transformadores. Então, quando Tiago diz estas palavras polêmicas: "Uma pessoa é justificada pelas obras e não apenas pela fé" ( Tiago 2:24 ), considero que não significa pela fé somente, mas que se mostra pelas obras.
    Paulo chama esse efeito ou fruto ou prova de fé a "obra da fé" ( 1 Tessalonicenses 1: 3 ; 2 Tessalonicenses 1:11 ) e a "obediência da fé" ( Romanos 1: 5 ; 16:26 ). Essas obras de fé, e esta obediência da fé, esses frutos do Espírito que vem pela fé, são necessários para nossa salvação final. Sem santidade, sem Céu ( Hebreus 12:14 ). Portanto, não devemos falar de chegar ao Céu apenas pela fé, da mesma forma que somos justificados apenas pela fé.
    Essencial para a vida cristã e necessário para a salvação final é a morte do pecado ( Romanos 8:13 ) e a busca da santidade ( Hebreus 12:14 ). Mortificação do pecado, santificação em santidade. Mas o que torna isso possível e agradável a Deus? Nós matamos o pecado e buscamos a santidade de uma posição justificada em que Deus é cem por cento para nós - já - somente pela fé.

Primeiro bíblico, depois Reformado

    Portanto, a fé não significa o mesmo quando aplicado à justificação, santificação e salvação final. Você pode ver que extraordinário cuidado e precisão é ser chamado para ser fiel à Escritura ao usar os cinco solas. E uma vez que a "Escritura somente" é a nossa autoridade final e decisiva, ser fiel à Escritura é o objetivo. Pretendemos ser bíblicos primeiro - e reformado apenas quando está de acordo com a Escritura.
    Os cinco solas fornecem uma claridade maravilhosa sobre o cerne da Reforma e o coração do evangelho, se a cláusula que as cinco frases preposicionais modificantes é "Justificação perante Deus é. . "Justificação perante Deus é somente pela graça , sem nenhum favor merecido; somente com base em Cristo , sem nenhum outro sacrifício ou justiça como fundamento; através apenas da fé , não incluindo qualquer obra humana; até o objetivo que todas as coisas levam, em última instância, apenas a glória de Deus; como ensinado com autoridade final e decisiva nas Escrituras somente.

sábado, 11 de novembro de 2017

Dupla Justificação: A Necessidade de Boas Obras para a Salvação

        


     A salvação é algo que todo cristão deve prezar, seja a sua própria salvação ou a salvação das pessoas que estão ao seu redor. Jesus mesmo disse que veio para salvar o mundo, e não para condená-lo (Jo 12:47). Entretanto, devemos analisar como é que somos salvos e quais são as evidências que percebemos na vida de um autêntico salvo.
      Paulo assevera que somos justificados somente pela fé sem as obras da lei (Rm 3:28). Em outra de suas cartas, a endereçada aos gálatas, Paulo também enfatiza que somos justificados pela fé somente e que as obras não fazem parte desse processo de justificação (Gl 2:16). O que quero deixar bem claro é que há uma confusão escancarada quando não se analisa o tipo de obras que aparece nesses versos bíblicos e o que aparecem em outros momentos nas Escrituras seja da parte de Paulo, da de Tiago e até mesmo da de Jesus Cristo, o nosso Senhor. 
      Quando Paulo aborda as obras em Romano 3:28 e em Gálatas 2:16, ele deixa bem claro que são as obras de lei, que, realmente, não podem justificar ninguém, pois ele mesmo afirma que a lei serve para mostrar que o ser humano é pecador (Rm 7:7). Ele afirma também que é impossível ser justificado pela lei (Rm 8:3), ou seja, nenhuma obra da lei pode nos justificar. Independente se os judeus faziam isso para serem salvos (interpretação tradicional) ou para se manterem salvos (interpretação da Nova Perspectiva sobre Paulo), a lei era totalmente inútil quanto a qualquer tipo de justificação. 
      É preciso ser salientado que há sim um tipo de obras que são necessárias para a consumação da salvação, que são as boas obras. Como foi destacado acima, as obras da lei não tem parte alguma na salvação humana. As que têm parte no processo de consumação e evidência da salvação são as boas obras. Estas mesmas que Paulo afirma que Deus as preparou para que as praticássemos (Ef 2:10). 
     A questão mais pertinente é quanto a Tiago. Ele afirma que o ser humano é justificado pelas obras, e não somente pela fé (Tg 2:24). O grande piedoso e erudito John Fletcher, grande amigo e parceiro de John Wesley no movimento metodista, afirma que somos duplamente justificados para sermos salvos. A primeira justificação ocorre pela fé apenas (Rm 3:28; Ef 2:18) e a outra se dá pelas obras, não as da lei, mas sim as boas obras (Tg 2:24). Independente se alguém queira afirmar esse termo dupla justificação ou não, a questão é que as boas obras se fazem necessárias na vida do justificado. Isto não há como negar. Tiago aborda isso na passagem mencionada, assim como Paulo, que já vimos, e Jesus, que afirma que devemos dar frutos (obras) que evidenciam nosso arrependimento (Mt 3:18), que nossa justiça (obras) deve ser maior que a dos fariseus (estes faziam muitas aparentes boas obras) e que nossas boas obras sejam vistas por todos para a glorificação de Deus, nosso Pai (Mt 5:16). 
     Pode ser concluído que todo cristão, necessariamente, deve praticar boas obras para evidenciar sua salvação em Cristo Jesus. Não há como ser salvo se não houver boas obras. A única exceção são nos casos de pessoas que são justificadas ao crerem e depois, no mesmo instante, morrem, como no caso do ladrão na cruz ao lado de Jesus (Lc 23:32-43).